“O tempo é um animal que me lambe devagar.”
— Hilda Hilst
É tarde, é tarde. Já sei.
Brigou com a cartola. Coelho que briga com chapeleiro cedo ou tarde se ensopa.
Perder tempo. Corria demais. Dizia que tinha pressa, mas era recusa: de parar, de ver, de apodrecer parado. Achava que podia medir a vida pelos ponteiros.
A cozinha range. O fogo aceso. Corto o que encontro: cenoura, cebola, um resto de erva seca. Tudo cabe na panela, tudo serve pra disfarçar o cheiro.
A mesa está posta. As cartas ainda têm sangue da última partida com a Rainha. A lebre dorme no chão, as patas tremendo de sonhos atrasados.
O coelho, desbotado demais, mancha o ar de inocência. Chega sempre correndo, derrubando as xícaras, tropeçando nas próprias falas. Nunca soube ficar quieto.
A pressa era uma forma de esconder o vazio. Corria para produzir ruído — o som das patas, o vento nas orelhas — qualquer coisa que abafasse o que vinha de dentro.
Também podia ser orgulho. Há quem fuja só para não admitir cansaço. O coelho corria contra si, tentando chegar antes do próprio nome. A pressa era abrigo e condena.
Só um bicho com tanta urgência poderia ter uma história tão mal desenhada. Coelho que bota ovos — já viu coisa mais sem sentido? Mistura de engano e calendário. Uma farsa de chocolate. Sempre correndo pra entregar o que nunca poderia ter feito.
Cozinhar é um modo de conversar. E ele não ouvia.
Repetia é tarde, é tarde — um ruído sem sentido.
Resolvi ensiná-lo.
Peguei-o pelo dorso com a delicadeza de um relojoeiro. O coração batia rápido, tentando escapar. Dei-lhe nome novo: Jantar.
Enquanto a água esquentava, tentei explicar:
— Não é vingança, é ajuste.
Ele me olhou sem entender, os bigodes trêmulos de medo.
— O tempo não passa, Jantar. Ele se cozinha.
A primeira bolha estourou e ele ainda respirava.
O vapor começou a contar histórias — da lebre, da Rainha, da ponte.
Lembrei dos dois morcegos que viviam pendurados de cabeça pra baixo, conversando coisas que só quem vive no escuro entende.
Diziam que nada acaba, só muda de posição.
Fiquei olhando a fumaça tentando desenhar asas, mas só saiu cheiro de coelho cozido.
A carne amoleceu na medida.
A cozinha se encheu de um silêncio espesso.
Provei o caldo. Quente, suave, irreversível.
A lebre acordou.
Olhou pra panela, pra mim, pro resto do vapor.
Disse qualquer coisa sobre a tartaruga e o mágico.
Sorri.
A lebre sempre perdeu — da tartaruga, do mágico.
E o mágico, no fim, era eu. Por causa da cartola.
Preciso de um novo companheiro para o chá.
O coelho nunca gostou do tempo do chá, nunca gostou da quiromancia.
Só tinha tempo para engolir café.
Se aprendesse a ler as borras no fundo da xícara, não estaria forrando o estômago.

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.
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